Duplo terremoto deixa quase mil mortos e mais de 50 mil desaparecidos na Venezuela
O duplo terremoto da última quarta-feira deixou quase mil mortos e mais de 50 mil desaparecidos na Venezuela, onde a sensação de impotência aumentava diante da falta de ajuda oficial para resgatar os sobreviventes.
Os terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, causaram o desabamento de centenas de prédios, principalmente no balneário de La Guaira, onde a população denunciou a escassa presença do governo nas operações de resgate.
"Estamos revoltados, precisamos de ajuda. Há pessoas vivas e faltam mãos e ferramentas", disse Marlon Ochoa, sobrevivente de um desabamento. "Estou procurando minha mãe, minha mulher e meu filho."
O governo restringiu hoje o acesso a esse estado e anunciou a sua militarização. A população denunciou a presença escassa dos precários socorristas locais, mas brigadas estrangeiras começavam a chegar.
A presidente encarregada, Delcy Rodríguez, foi vaiada ao se aproximar dos escombros de um prédio em Caracas. "Fora!", gritaram moradores. "Chega de fazer campanha política durante uma tragédia como a que estamos vivendo! O governo não está fazendo nada pelo povo!"
- Colapso total -
Familiares, vizinhos e voluntários fazem o que podem em meio à destruição, mas precisam de maquinário especializado para cortar vergalhões de aço ou remover grandes blocos.
Equipes de busca e resgate de 17 países foram mobilizadas para ajudar. Socorristas de Chile, El Salvador, México, Colômbia, Suíça e Equador já estavam na Venezuela, um país em crise, com um sistema de saúde colapsado.
O cenário era sombrio. A brigada chilena encontrou um conjunto habitacional em ruínas em La Guaira. "O colapso é total e há poucas chances de achar pessoas com vida", disse à AFP o chefe da equipe, Nadiomar Polanco.
O governo venezuelano comemorava alguns resgates, mas não informou quantos. O número oficial é de 920 mortos, mas o governo contabilizava apenas poucas centenas de desaparecidos, bem menos do que o informado pelas Nações Unidas.
O chefe de ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, disse à AFP em Genebra que o paradeiro de mais de 50 mil pessoas era desconhecido. "Trata-se de uma operação de resgate extremamente complexa", afirmou. Uma lista não oficial de desaparecidos que circula nas redes sociais reúne nomes de mais de 52 mil pessoas.
Histórias trágicas surgiam a cada minuto: algumas pessoas perderam suas casas, suas famílias, e outras perderam tudo. "Ele está ali", soluçava Alessandro del Giudice, 23 anos, enquanto procurava o pai sob uma montanha de escombros. Sua avó, Amparo, tentava retirar os destroços com as próprias mãos. "São muitas pedras, com as mãos não dá", lamentou. "As autoridades não servem para nada. Os militares deveriam estar aqui com todo o maquinário que têm."
A líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz, María Corina Machado, pediu a libertação de "todos os presos políticos", civis e militares, "para que possam ser recebidos por suas famílias nestas horas trágicas".
Após o presidente Donald Trump prometer ajudar seus "novos e grandes amigos", os Estados Unidos anunciaram o envio de 150 milhões de dólares (R$ 819 milhões), além de dois navios de guerra, aviões de transporte e helicópteros para apoiar a Venezuela.
A força dos terremotos foi sentida na Colômbia. Desde então, mais de 300 réplicas foram registradas.
A Venezuela é um país sujeito à atividade sísmica, mas não registrava um terremoto de grande magnitude desde 1997.
(G.VanRooyen--TPT)